Supostamente, o que importa para a empresa é a sua operação: se ela está dando lucro, se as boas pessoas estão sendo contratadas e retidas, se ela está inovando, etc. O preço da ação varia diariamente, mas isso pouco afeta a operação do dia a dia.

Uma empresa não vende mais projetos se está subindo 2% naquele dia e nem perde projetos se estiver caindo 3%.

Uma empresa só faz dinheiro com suas ações no momento que é feita uma oferta pública, como num IPO.

Então porque empresas fazem de tudo para evitar que suas ações caiam e gostam tanto de ver suas ações subirem?

Por que empresas se importam

Antes de prosseguir, é importante que você conheça 2 conceitos que ajudam a explicar: mercado primário e mercado secundário.

Mercado primário

Mercado primário é quando o emissor de um título ou ação “lança” os ativos no mercado. Quem comprar aquele investimento estará pagando para esse emissor. Você consegue comprar no mercado primário quando uma empresa está fazendo uma oferta publica de ações, quando tem uma nova emissão de debêntures e por ai vai.

Num IPO, por exemplo, você está comprando ações no mercado primário, pois quem está te vendendo é a própria empresa.

Mercado secundário

Uma vez que o título/ação está no mercado e o dono quer vender, isso é uma transação que se passa no mercado secundário. Nesse caso, o emissor já não recebe dinheiro da trasação.

Quando eu compro uma ação da Petrobras de alguém, eu recebo as ações e essa pessoa recebe o dinheiro. Nenhum dinheiro é canalizado para a Petrobras nessa transação.

Um exemplo para deixar tudo mais fácil:

Digamos que a Petrobras oferta 100 ações, valendo R$ 10 cada no mercado. Nessa operação, ela recebe R$1.000.

Se no dia seguinte, o investidor que comprou a R$10 conseguir vender por R$15, a Petrobras não recebe nada. Ela só recebe em novas ofertas públicas. No mercado secundário, o dinheiro não vai para o emissor.

Mas se uma empresa não faz dinheiro com o mercado de capitais depois que os papéis são emitidos, porque ela se importa com o valor deles?

O que o Banco BTG nos ensina

Para explicar, vou falar de como o BTG se beneficiou de conseguir segurar a queda de seus papéis e depois valorizá-los.

Em 2015, o então presidente do BTG, André Esteves foi preso num desdobramento da Operação Lava-Jato.

As ações do BTG, que tinham o ticker de BBTG11 na época chegaram a cair 24,4% no dia da prisão. Rapidamente, o banco começou a vender ativos e participações em empresas que eles tinham para levantar caixa.

Uma parte desse caixa foi usado para pagar os saques que estavam sendo feitos pelos clientes.

Outra parte desse dinheiro foi usado para recomprar as próprias ações para fazer uma pressão compradora e estancar a queda vertiginosa.

Não fazia mais sentido usar esse dinheiro para melhorar a operação do banco, porque isso eventualmente faria a ação voltar a subir?

A verdade é que realmente o valor da ação não interfere na operação do dia a dia, mas interfere em novas ofertas públicas de ações.

Lembra o que eu tinha falado de mercado primário e secundário? As ações do BTG que estavam caindo eram transacionadas no mercado secundário. Mas digamos que o BTG queira captar dinheiro. Ele tem duas opções: emitir debêntures ou fazer uma oferta de ações. Ao ofertar novas ações ao mercado, o BTG perde quando a ação está desvalorizada. Como o preço caiu, o potencial de captação dele diminui também.

Vamos voltar ao exemplo da Petrobras do começo do texto.

Digamos que 100% da Petrobras sejam 1000 ações. Ela decidiu abrir 10% do capital, ou seja, 100 ações e vendeu elas por R$ 10. Nessa operação, ela conseguiu levantar R$1.000. Depois de 1 ano, ela decide captar mais dinheiro emitindo mais 100 ações. Se a ação estiver valendo mais, digamos R$15, ela consegue captar 50% mais dinheiro vendendo o mesmo número de ações que vendeu um ano atrás.

Do mesmo jeito, se a Petrobras estiver valendo R$ 5, o potencial de captação caiu pela metade.

Nesse caso em específico do BTG, essa recompra de ações foi uma jogada de mestre. A empresa conseguiu recomprar um grande número de ações a um preço baixo, porque estava acontecendo um sell-off.

Há alguns meses atras, o BTG fez uma nova oferta de ações em que levantou mais de R$2 bilhões. Sendo assim, ao recomprar ações, eles conseguiram fazer duas coisas:

  1. Freiar a queda
  2. Comprar barato para ofertar mais caro lá na frente

Resumindo, o presidente do BTG foi preso, jogando o valor das ações la embaixo. Durante esse processo, o banco começou a recomprar essas ações para segurar o preço. Quatro anos depois, em 2019, o BTG fez uma nova oferta de ações de levantou mais de R$2 bilhões.

Essa é a importância do valor da ação para as empresas. Na operação do dia a dia, realmente pouca coisa muda. Mas para novas emissões de ações, uma queda no valor do papel é muito prejudicial.