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Você conhece Barão de Mauá, o Elon Musk brasileiro? pt.1

Irineu Evangelista de Sousa (Barão de Mauá): o Elon Musk brasileiro.

Esses dias o Elon Musk se tornou o homem mais rico do mundo, passando Jeff Bezos. O que me chama a atenção é que ele construiu a fortuna de uma forma um tanto quanto diferente da do Jeff Bezos, Bill Gates Mark Zuckerberg e outros bilionários.

Jeff construiu seu império através da Amazon, a gigante do e-commerce.
Bill construiu seu império através da Microsoft, a gigante de software.
Mark construiu seu império através do Facebook, a gigantesca rede social.

São pessoas obstinadas que conseguiram se sobressair em mercados específicos. Isso tem um mérito gigante.

Mas quando olho para o Elon Musk, eu nao consigo sentir nada que não seja admiração incondicional.

Ele construiu o seu império atacando áreas muito diversas:

  • Automotiva: Tesla
  • Aeroespacial: SpaceX
  • Energia: Solarcity
  • Transporte: Hyperloop
  • Infraestrutura: The Boring Company
  • Inteligencia artificial: OpenAI
  • Medicina: Neuralink

Sem contar o grande sucesso em pagamentos que ele ajudou a criar que foi o Paypal.

Se sobressair em 1 área já é raro e motivo de grande admiração. Em várias é mais ainda.

O interessante é que no século XIX, houve um brasileiro com ambições parecidas e com resultados expressivos.

O fato de grande parte dos brasileiros não conhecerem essa lenda do empreendedorismo brasileiro diz muito sobre como damos pouca atenção para notáveis brasileiros.

E antes que você diga que isso foi um caso a parte e que hoje damos valor ao notáveis brasileiros, sabe o Facebook e o Instagram? Ambos tiveram fundadores brasileiros. Você sabia? Pouca gente sabe.

Eduardo Saverin foi um dos fundadores do Facebook e Mike Krieger, por mais que o nome pareça de gringo, é um brasileiro que ajudou fundar o Instagram.

Mas chega de conversa e vamos falar da pessoa que eu reservei um tempo para escrever sobre logo após ler sua biografia dele.

Estamos falando de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá.

Apenas um comentário: meu objetivo com esse texto não foi contar a sua história e sim ressaltar alguns pontos que eu acho fora de série.

Para ver toda a história dele, recomendo fortemente a leitura do excelente “Mauá Empresário do Império” do Jorge Caldeira.

Início de tudo

Irineu Evangelista de Sousa começou a trabalhar aos 11 anos num comércio de um escocês chamado Carruthers. Lá, aprendeu como os ingleses e escoceses faziam negócios. O que era bem diferente do jeito brasileiro da época. Além disso, também aprendeu a falar inglês, o que seria importante mais tarde. Já que teve seus negócios em uma época que a Inglaterra comandava a revolução industrial.

No começo da sua carreira, Irineu abriu seu próprio comércio e prosperou. Em dado momento, decidiu vender o comércio e comprou um estaleiro em Niterói.

Fazendo um paralelo, me lembrou a história de Vanderbuilt que iniciou sua carreira como o Barão das Balsas nos EUA e decidiu vender tudo e embarcar no negócio de ferrovia que parecia mais promissor.

Não conhece a história de Vanderbuilt? Ele foi o homem mais rico dessa época que estamos falando. Tem um texto aqui que fala mais sobre esse gigante da indústria.

Voltando a nossa história, a revolução industrial estava acontecendo e aquilo parecia ser um mercado com potenciais exponenciais.

O Brasil precisaria de navios, máquinas e outros produtos de indústria e não tinha ninguém para fazer isso. Como importar era caro, Irineu viu que ali tinha uma oportunidade maior do que no comércio que ia bem.

Assim, tomou uma decisão que poucos tomariam: fechou a empresa que ia muito bem, obrigado, para começar uma outra, em outro segmento, do zero.

Barão de Mauá, o Industrial

O estaleiro que ele comprou precisava de mão de obra especializada, mas também gente para fazer o trabalho braçal. Como não existia essa mão de obra especializada no Brasil na época, Irineu trouxe engenheiros da Europa.

Estaleiro ponta de areia em Niterói
Estaleiro Ponta de Areia

Para o trabalho braçal, a escolha era óbvia: o Brasil vivia seu período escravocrata e qualquer um naquela situação recorreria facilmente a escravos, mas Irineu pensava diferente.

Em 1846 ele já tinha uma cabeça de “partnership”. Ele gostava da ideia de pagar bem seus funcionários e dar-lhes participação societária para que todos os incentivos se alinhassem. Isso era muito mais produtivo do que forçar alguém a trabalhar com algo que ele não quer.

Só de ter uma cabeça assim, Irineu conquistou uma série de inimigos no governo. Todos gostavam do business de escravos e isso dava muito dinheiro.

No estaleiro, Irineu não teve muita alternativa e acabou tendo que contratar escravos, mas nas próximas empreitadas, ele faria questão de ir contra o status quo.

Mauá era um liberal na época da escravidão. Preferia que as pessoas trabalhassem por um salário e tivessem possibilidade de virar sócias do negócio.

O estaleiro começou a prosperar e dar bastante dinheiro a Irineu. Como ele tinha um grande apetite pelo empreendedorismo e como o Brasil era muito atrasado nesse tema, ele teve uma ideia.

Mauá, o Banqueiro

Irineu sabia falar inglês e tinha muitos contatos na Inglaterra. Lá, viu de perto o berço da revolução industrial em Liverpool e aprendeu com eles.

A revolução industrial dava boas ideias de negócios a Irineu

Trouxe, então para o Brasil uma ideia que era comum nas terras inglesas, e completamente inovadora aqui: abrir uma empresa S.A.

Não existia nenhuma S.A. no Brasil. Irineu queria abrir um banco e ter sócios capitalistas para que a empresa já nascesse com o tamanho necessário para dar o próximo passo: usar esse banco para financiar outras três empresas.

Então ele reuniu diversas pessoas para investirem no banco que ele estava criando. O Banco se chamaria Banco do Comércio.

Antes de conseguir abrir, teve grandes dificuldades com o governo, que basicamente ia contra tudo que ele fazia. A mentalidade do brasileiro da época é que os avanços deveriam ser feitos pelo governo e não por empresários sedentos por lucro.

Depois de um bom tempo tentando abrir o banco, recebeu o aval. Na última hora, decidiu mudar o nome do banco para Banco do Brasil.

Sim, o Banco do Brasil que alguns de vocês investem hoje foi fundado na iniciativa privada por Irineu Evangelista de Sousa.

Banco do Brasil foi fundado por Mauá

Justiça seja feita. Um banco chamado Banco do Brasil tinha existido antes, fundado pelo governo, mas havia falido. O 2º Banco do Brasil (que é o que conhecemos hoje) foi fundado pelo Irineu e não pelo governo.

Na fundação, o Banco do Brasil já era a maior empresa do país, avaliado em 10 mil contos de réis. Para se ter uma ideia, no momento que nasceu, ele valia 5 vezes mais do que o seu único concorrente.

A estatização de seu banco

Não demorou até o governo ser tomado pelos ideais de que era inadmissível existir uma empresa privada de tal tamanho, com um empresário ganhando tanto dinheiro. Era “óbvio” que aquele tipo de empresa deveria ser estatal e não privada.

E foi exatamente o que o governo fez. Com mudanças de lei pelos deputados federais, ficou proibido que existisse um banco S.A privado. O pânico tomou conta dos correntistas que sacaram e não deram opção a Irineu se não vender a empresa ao governo.

A partir dai, o banco passou a ser estatal.

No comando de Irineu, a empresa tinha 3 diretores técnicos: pessoas que conheciam o business e trabalhavam de modo a melhorar a eficiência do banco a todo momento.

Já estatal, o número de diretores saltou para 20. E eles não eram técnicos. Eram indicados políticos. Eram amigos de Dom Pedro. A esmagadora maioria nunca havia trabalhado com bancos antes.

O melhor programa econômico de governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem.

Irineu Evangelista de Sousa

Insano né? O crédito que tinha se tornado de fácil acesso e que poderia ajudar o país inteiro a se industrializar se tornou escasso com a ineficiência do governo em administrar o banco.

Mauá era um liberal em tempos de monarquia.

Ele acreditava que a iniciativa privada era muito mais capaz de trazer a industrialização para o país do que o governo. Ele tinha visto isso na prática na Inglaterra. Se até hoje grande parte dos brasileiros acredita que é papel do Estado de industrializar o país e não da iniciativa privada, imagina no século XIX.

Mauá, o multiempresário

A ideia de fundar o Banco do Brasil era maior do que ter um grande banco. A ideia passava por financiar três empresas que Irineu queria fundar:
A Companhia de Navegação do Amazonas, a Companhia de Iluminação a Gás e a construção de uma linha férrea entre o porto de Mauá e Petrópolis.

Sem o comando do banco, a criação das empresas se tornou mais difícil, mas não impossível.

Irineu fundou as três e elas começaram a dar lucro.

Inclusive, na fundação da linha férrea, ele foi condecorado com o título de Barão de Mauá.

Estrada de ferro construída por Barão de Mauá

Não demorou até que o governo mais uma vez se coçasse e achasse um absurdo um empresário ganancioso e que só pensa em lucro pudesse se sobressair tanto e fazer tanto dinheiro.

Mais uma vez o governo começa a articular, mudar leis e criar situações para dificultar a sua vida, como por exemplo a criação de uma linha férrea paralela com dinheiro do contribuinte (que pesou bastante no orçamento da união) simplesmente para desbancar a estrada do Barão.

Uma pequena interrupção no texto para um recado importante

Como eu falei no começo do texto, meu objetivo não é contar a vida toda dele. Tem muita situação interessante para falar.

Eu percebi que o texto está ficando beeem extenso e na verdade eu cheguei mais ou menos na metade do que eu queria falar, então vou fazer um trato com você.

Vou escrever um resumo do que ele fez de notável até aqui e caso você queira saber a continuação da história, peço que deixe um comentário nesse texto pedindo que eu escreva a parte 2.

Lista de feitos notáveis até agora

  • Mauá foi um dos comerciantes mais bem sucedidos do Brasil
  • Vendeu o comércio e comprou um estaleiro e fez ele prosperar, se tornando mais rico ainda
  • Criou a primeira empresa S.A do Brasil: o Banco do Brasil, que pouco tempo depois foi estatizado e aparelhado (isso em 1853)
  • O Banco do Brasil nasceu sendo a maior empresa do Brasil na época, valendo 5x mais que o seu único concorrente
  • Criou a primeira linha férrea do Brasil, conectando o Porto de Mauá a Petrópolis, que lhe deu o título de Barão de Mauá
  • Em 1860, Mauá tinha 17 empresas localizadas em 6 países: Brasil, Uruguai, Argentina, Inglaterra, França e Estados Unidos
  • Sua fortuna era cerca de 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento anual do Império do Brasil era de 97 mil contos de réis. Sim, isso significa que Mauá tinha patrimônio maior do que os gastos do Brasil no ano.
  • Em 1860, Vanderbuilt, o barão das ferrovias americanas era o homem mais rico do mundo com 100 milhões de dólares. A fortuna de Mauá era de 60 milhões de dólares nesse momento.

Para se ter ideia do que isso significa, hoje (19/01), o brasileiro mais rico do mundo é o Jorge Paulo Lemann, fundador da Ambev, a maior cervejaria do mundo. Ele tem uma fortuna de 23 bilhões de dólares, enquanto o homem mais rico do mundo, Elon Musk, tem um patrimônio avaliado em 197 bilhões. Lemann tem 11% do patrimônio de Musk. Mauá tinha 60% do patrimônio de Vanderbuilt.

Continuação

Para o texto não ficar gigante, decidi parar por aqui e saber a opinião de vocês. Quer saber mais sobre a trajetória de Mauá, os erros e acertos? Deixa um comentário aqui embaixo pedindo a parte 2!

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