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Fundos quantitativos e os cisnes negros do mercado

O coronavírus pegou muita gente de surpresa e isso é um fato. Quem acompanha os investimentos de perto, sabe que ultimamente estão sendo dias difíceis.

Inclusive, temos um canal no telegram em que trazemos conteúdo sobre o mercado financeiro, com o toque do Real Valor. Participe!  

Voltando ao assunto,  mesmo com o derretimento das bolsas, e com um mercado que teve que se reinventar  de forma geral, tiveram pessoas fazendo dinheiro e fundos performando de forma positiva. 

E uma pergunta que às vezes pode ficar na cabeça é será que eles previram esse acontecimento? 

Para não te matar de curiosidade, a resposta é não. Muito difícil de prever um vírus que iria contaminar a população de maneira exponencial.

A última crise sanitária que tivemos foi há 100 anos atrás, com a gripe espanhola e creio que se alguém passou por ela, deve estar bem velhinho agora né? 

Mas fato é que, de alguma forma, por olhar histórico de fatos e acompanhar mercado, alguns gestores podem estar mais bem preparados para surfar essa crise do que outros. 

E é nesse contexto, que entram os fundos quantitativos.

Para falar sobre Fundos Quantitativos, nada melhor que ouvir da boca de um especialista.

Então a partir de um bate papo entre Pedro Simonetti, sócio da Giants Steps capital com o Edu, do Real Valor e o Bernardo, sócio da RVI Capital, a gente consegue perceber como e porque os fundos quants (como são carinhosamente chamados) estão conseguindo surfar a onda da crise do coronavírus. 

Se você quiser assistir a live diretamente, vale super a pena:

Para começar, vamos falar de conceitos

O que é fundo quantitativo e por quê eles vem se destacando no mercado?

Quem explica isso para nós de forma bem didática é o Pedro Simonetti da Giants Steps Capital, a maior gestora quantitativa da América Latina. 

Sobre os fundos quantitativos

Você lembra que tivemos a corrida do ouro aqui no Brasil há 500 anos atrás, certo? Como esse ouro era descoberto?

Os portugueses e espanhóis mandavam os garimpeiros irem para o riacho com pás e peneiras procurar ouro. Nessa época a forma de mineração do ouro era totalmente rústica, porque era possível ver as pepitas a olho nu. 

Depois de 500 anos de exploração é quase impossível ver a olho nu, mas a produção de ouro hoje em dia é 50 vezes maior que há 500 anos atrás. Como isso se explica? 

Atualmente, para achar ouro precisa de muita tecnologia: máquinas gigantescas, com processos químicos para dissociar partículas de outros materiais, para depois fundir e assim formar a pepita. 

Fazendo um paralelo com o mercado financeiro, todo mundo está em busca da pepita de ouro, certo? Há 30, 40 anos atrás, as pepitas eram gigantes a olho nu. Você colocava um NTNB na carteira e tinha um rendimento significativo com pouco risco. 

Só que hoje, as grandes oportunidades não são tão visíveis a olho nu. Então, os fundos quantitativos usam tecnologia para achar as oportunidades de mercado e potencializar a capacidade de gestão para entregar o melhor retorno. 

E por quê mudou tanto essa forma de encontrar as pepitas do mercado?

Quantidade de informação que produzimos 

Um estudo da IBM sobre a quantidade de informação produzida na humanidade concluiu que 90% da produção de informação é dos últimos 12 meses. E que a cada ano, a quantidade de informação disponível pode ser multiplicada por 10. 

Entretanto,  a gente não consegue processar essa quantidade exponencial de informação. E no mercado financeiro, quem está mais bem informado, tem vantagem competitiva.

Assim, os fundos quantitativos usam poder computacional para processar uma quantidade de informação maior. 

Velocidade do mundo 

Se formos parar para pensar, na crise de 2008 demoramos meses para atingir o fundo máximo. Ou seja, a distância do pico para o drop drown levou meses para acontecer. 

Em 2020, com a crise do coronavírus, demoramos dias porque boa parte do mercado já usa tecnologia. 

Dos top 10 hedge funds do mundo nos EUA, 8 são pautados em tecnologia. 

Para você ter uma ideia da velocidade, vou te dar um exemplo:  

Quando sai uma notícia que pode mexer com o mercado e impactar as posições, você como um trader provavelmente vai agir.  

Do momento que você recebe a notícia, processa, toma uma decisão, emite e executa uma ordem, se você for muito rápido, vai demorar alguns segundos. 

Quando falamos em algoritmos, são milissegundos. 

Para te dar um parâmetro desse exemplo, a Giant hoje processa uma informação, toma uma decisão, envia uma ordem e executa em 13 milissegundos. Um estalar de dedos são 500 milissegundos

Hoje em dia, vivemos em um mundo muito difícil navegar sem tecnologia e por isso fundos quantitativos usam máximo de tecnologia possível para ter vantagem competitiva.

Então fundos quantitativos é gerido por robôs?

A imagem que as pessoas tem na cabeça quando se fala em quantitativo é que é um robô terminator que fica vendo o mercado para escolher quais ativos comprar.

Na verdade a melhor imagem é a de um nerd que usa tecnologia para ser mais eficiente. 

Como por exemplo, o homem de ferro. Já viu o filme dele da Marvel? O cara tem uma armadura toda tecnológica, mas quem controla é o Tony Stark, um ser humano. 

As pessoas que trabalham nos fundos quantitativos usam a tecnologia para achar as pepitas de ouro no mercado.

Todos os fundos quantitativos usam a mesma estratégia?

Para você entender melhor, precisa saber que algoritmos nada mais são do que um conjunto de Se’s. 

  • Se acontecer X, executa Y
  • Se acontecer Z, executa W 
  • E assim por diante. 

O valor do algoritmo não é a execução e sim o que executar e isso sai da cabeça do gestor. Por isso, respondendo a pergunta, cada fundo quantitativo tem a sua estratégia definida pelo gestor. Apenas a ferramenta que é quantitativa. 

No caso da Giants, são usadas estratégias para 2 regimes de mercado. 

  • Quando investidores estão racionais: analisam fundamentos, vêem se o preço faz sentido para determinado ativo, opera utilizando a lógica
  • Lógica vai para o espaço: o driver de preço é a emoção (psicológico). O famoso efeito manada que a gente já trouxe aqui várias vezes. 

Os fundos Zara e Darius seguem o primeiro regime e fazem  dinheiro em momentos de emoção (pânico ou euforia)

É como se os algoritmos fossem um radar monitorando ativos no mundo inteiro bolsa, câmbio, juros, commodities e identifica indícios que determinado mercado vai ser dominado pela emoção (pânico e euforia). 

Então monta a estratégia rapidamente para surfar a onda. O gráfico do fundo parece uma escada, ele anda de lado por um tempo e sobe degrau. Isso já é previsto, porque na maior parte do tempo os investidores estão racionais

Já o fundo Sigma faz dinheiro nos momento de racionalidade, ou seja, os algoritmos são programados para operar usando fundamentos, processo informação.

E qual a diferença para uma análise fundamentalista feita por um gestor tradicional?

Quantos ativos você consegue acompanhar de perto? 

Talvez 10, 20, 50..

Com uma equipe pode chegar a 200. O sigma acompanha 5.000 ativos

Beleza, mas e o que cisne negro tem a ver com isso?

Bom, se você acompanha o blog, sabe que trazemos a lógica do cisne negro com certa frequência aqui. Se você nunca ouviu falar sobre isso, eu vou te explicar.

A lógica do Cisne Negro

Para começo de conversa, esse é um livro escrito por Nassim Nicolas Taleb que fala sobre fatos altamente improváveis. 

Nassim define no livro que cisne negro é um acontecimento improvável e que, depois do ocorrido, as pessoas procuram fazer com que ele pareça mais previsível do que ele realmente era.

O nome vem da história da descoberta dos cisnes negros. Era conhecimento geral que cisnes eram brancos. Ninguém nunca tinha visto um cisne de outra cor.

Sabe flamingos? Eles são rosas, né? Então… o pessoal tinha a mesma impressão com cisnes… eles eram brancos.

Com a descoberta da Austrália, também foram descobertos os cisnes negros. Até então, era conhecimento geral que cisnes eram brancos. Do dia para a noite, isso mudou. Agora existiam cisnes negros também.

A moral do livro é: eventos cisnes negros acontecem a todo momento no mundo e as pessoas tendem a não levá-los em consideração, só depois do fato consumado.

O livro trás uma visão de que tragédias ou notícias muito boas acontecem a todo momento no mundo. Não sabemos o que vai acontecer nem com quem e nem quando. Mas com certeza terão esses eventos.

Ok, mas agora o que fundos quantitativos tem a ver com isso? 

A gente traz um caso que todo mundo conhece, o famoso Joesley Day.

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Tudo começou com um áudio gravado pelo dono da JBS, Joesley Batista, no qual ele registrou o até então Presidente Michel Temer dando aval comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, que estava preso por conta de desdobramentos da Lava Jato.

O áudio fazia parte de uma delação premiada que foi fechada com a Procuradoria Geral da República na operação Lava Jato. Joesley Batista queria uma redução na sua pena por lavagem de dinheiro e corrupção.

A gravação caiu como uma bomba e muitos investidores já davam como certa a renúncia de Michel Temer. O grau de incerteza disparou, até então o país estava começando a se recuperar de uma crise política e econômica, uma troca de presidência era inimaginável para o momento.

Os ativos brasileiros nunca tinham tido uma queda tão forte em tão pouco tempo. A delação aconteceu a noite e a queda aconteceu no after market

E a probabilidade de um evento desse acontecer é de 1 a cada 1 milhão de anos. 

Ou seja, um grande cisne negro.

Como a delação aconteceu a noite, com o mercado fechado, a Giant não teve muito poder de reação e como a maioria do mercado fechou seu dia negativo. 

Só que nesse momento, deu para perceber que primeiro no Brasil tudo pode acontecer (e acontece mesmo) e segundo que dá para o algoritmo ser ensinado de como reagir como eventos como esse acontecerem novamente. 

Então com um cisne negro, a empresa foi desafiada a desenvolver um modelo que defendesse o fundo em momentos como esse. 

Então decidiu criar um modelo com opções em dólar que compra volatilidade na medida que o fundo está mais posicionado. Quando acontece de os preços caírem, a volatilidade explode e o fundo defende a carteira.

E percebeu que essa estratégia funcionou na crise dos caminhoneiros, o fundo só foi bem porque o Joesley Day tinha acontecido.

Sendo assim, com a tecnologia e com o passar do tempo o algoritmo vai sendo incrementado, e quanto mais dados tiver, melhor a visão sobre a distribuição de comportamento do ativo e mais rápida a velocidade de resposta. 

Falando em coronavírus. O algoritmo previu que iria acontecer isso?

O algoritmo não é mãe dinah.

Mais uma vez, ele é um conjunto de Se’s que vai sendo incrementado ao longo do tempo, mas o fundo performou bem porque olhou historicamente o comportamento do mercado quando sofremos vários choques.

A história não se repete, ela rima, ou seja, é possível usar históricos passados para ter noção do que fazer quando começa a dar problema. 

Independente se é uma pandemia, uma lei que muda o mercado, uma guerra, se um país influencia o outro ou se vai ter coronavírus.

A explicação importa menos, no final do dia o que interessa é como o mercado reage a isso, como os investidores lidam com um choque desse tipo.

Concluindo

Um fundo quantitativo usa tecnologia para potencializar as oportunidades de mercado. Entretanto é sempre bom ver a estratégia de cada um, uma vez que cada gestor tem uma forma de lidar com os dados que estão sendo trabalhados. 

Prever cisnes negros é quase impossível, mas é importante montar um portfólio robusto para que você consiga surfar mesmo esses momentos.

E você? Já conhecia os fundos quants? Comenta aqui e me diz. 

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