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Naji Nahas: o homem que quebrou as Bolsa de Valores do Rio de Janeiro

Você já reparou que todo dia no Jornal Nacional tem duas notícias que estão SEMPRE presentes?

São elas: a meteorologia e os índices de bolsa de valores.

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Informação sobre o tempo é muito importante e não, não é para saber se você vai ter que levar guarda-chuva na bolsa ou não.

A previsão do tempo ajuda muitos negócios do país que dependem das condições climáticas (agricultura, pecuária, pesca, embarcação, aeronáutica, etc.), além de  ajudar a prevenir desastres.  

E os índices da bolsa? Bom, nem preciso falar. Para acompanhar seus investimentos é sempre importante ter um índice de comparação. No Brasil, para o mercado de ações o mais utilizado o Ibovespa.

O Ibovespa é o mais importante indicador de desempenho médio das cotações das ações negociadas na Bolsa de Valores do Brasil, a B3 – Brasil, Bolsa, Balcão.

E por que eu estou falando sobre isso?

Bom, nem sempre a B3 foi a única bolsa de valores do Brasil.

No início da década de 60, tinha uma bolsa de valores para cada estado brasileiro e eram controladas pelas respectivas secretarias estaduais de finanças.

A cidade maravilhosa, tinha sua própria bolsa: a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, carinhosamente conhecida com BVRJ.

Durante a história brasileira, a BVRJ teve muito destaque, principalmente na época áurea do café.

Mesmo com negociações intensas durante a sua existência, um episódio fez com que ela fosse esvaziada.

Naji Nahas, um libanês radicado no Brasil desde 1969 fez a BVRJ subir 2.000% e quebrou o mercado no dia seguinte.

Breve história sobre a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro

Eu adoro saber a história dos lugares e os acontecimentos até chegar no momento presente, então fui pesquisar sobre a história da BVRJ.

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 Foto: Gabriel de Paiva / O Globo

No ano de 1820, a BVRJ foi inaugurada (quase 100 anos antes da Bovespa, que foi fundada em 1917). 

Nessa época, os corretores eram chamados de zangões e ficavam nas praças realizando negócios em uma espécie de pregão ao ar livre. Negociavam câmbio, escravos, mercadorias, gado, seguros e fretes de navio.

Os primeiros ativos de papéis, referentes à empresas estatais, foram negociados em 1828 e a emissão dos primeiros papéis da iniciativa privada aconteceram no final da década seguinte.

Em 1845, a profissão do corretor de fundos públicos foi regulamentado e a BVRJ ganhou uma casinha! A sede ficava na Rua Direita, no centro, próximo ao porto.

Em 15 de novembro de 1899, na Proclamação da República, foram lançadas ações de todo tipo de companhia no mercado.

Nas primeiras três décadas do século 20, a economia do país estava baseada no café.

O governo tinha interesse na BVRJ pela liquidez que proporcionava aos títulos da dívida interna, assim como pelo monitoramento que exercia sobre a taxa de câmbio.

A BVRJ viveu seus anos dourados entre as décadas de 1950 e 1960.

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Com o crash de 1971, quando estourou a segunda maior bolsa especulativa do mercado brasileiro a BVRJ começou a perder espaço para Bolsa de São Paulo.

Em 1989, sofreu a sua maior queda com Naji Nahas que em junho daquele ano passou vários cheques sem fundos e causou um rombo de US$ 400 milhões. Esse evento levou a quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e causou fragilidade no órgão, que nunca mais se recuperou.

Quem é Naji Nahas?

Naji Nahas é um Libanês, criado no Cairo.

Chegou ao Brasil em 1969, com 22 anos e uns milhões de dólares no bolso.

Pois bem, Mr. Nahas estava atrás de oportunidades na nossa pátria amada Brasil, e assim, montou um conglomerado, que incluía empresas, fazendas de produção de coelhos, banco, seguradora e outros.

Ele chegou a ser dono de 7% das ações da Petrobrás e 12% da Vale que dava algo em torno de US$ 500 milhões da época.

Inshalá, é muito ouro!

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Mas e aí? Como foi o esquema que quebrou a Bolsa do Rio?

Como Naji Nahas quebrou a BVRJ?

Em 1988, Nahas, que já era milionário, comprou um monte de opções de compra da Petrobras quando as ações estavam em baixa.

Se você não sabe o que é opção, vou dar um exemplo rápido aqui para você entender. Se você já sabe, é só passar as próximas 12 linhas para continuar a história.

Opções no mercado financeiro:

A ação de uma empresa XYZW está valendo R$ 50, mas você aposta que ela vai subir em breve.

Então você vai e compra uma opção que custa, por exemplo, R$ 1 para ter o direito de comprar a ação por R$ 100 daqui a X dias, vamos estipular que sejam 30.

Depois de um mês, se a ação estiver abaixo de R$ 100, você perdeu aquele R$1 que usou para comprar a opção.

Mas se a ação estiver R$ 150, você exerce seu direito de comprar a R$ 100 e vende por R$ 150. Ou seja, cada R$ 1 rende R$ 50, lucro de 5.000%. Imagina agora com números grandes.

Se ainda tiver alguma dúvida, temos um texto sobre as opções aqui no nosso blog.

Voltando para o Nahas… Caso Petrobras

O libanês comprou as opções da Petrobras e precisava que o valor aumentasse para que ele comprasse baixo e vendesse alto.

Ele começou a comprar ações através de suas empresas, ou seja, uma vendia para outra e assim, o preço da ação subia. 

Outros investidores viram o movimento do mercado em que a ação aumentou e começaram a comprar, o famoso FOMO Fear Of Missing Out (medo de perder a oportunidade). Assim o preço da ação continuou a subir ainda mais.

Para sustentar essas compras e vendas, Nahas precisou pegar empréstimos com os bancos.

Como o empresário já tinha um patrimônio relativamente alto, os bancos emprestavam dinheiro para ele a uma taxa estipulada e ele alavancava com os lucros dos seus rendimentos.

No vencimento de suas opções, as ações da Petrobras haviam valorizado 400%.

Ele já iria ganhar muito dinheiro da compra e venda exercendo o direito das opções. Masss.. ele detinha boa parte das ações em suas empresas, e com isso não existiam tantos papéis assim da Petrobras à venda no pregão. 

O pessoal que tinha vendido as opções para Nahas precisou adquirir com ele as ações com valor de mercado, para vender novamente para ele no valor que suas opções davam direito.

Mais ou menos assim:

  • Valor de mercado R$ 50
  • Valor de exercício das opções: R$ 25

Pessoal comprava as ações das empresas de Nahas a R$ 50 e vendia para ele a R$ 25.

Nesse episódio, o empresário fez muito dinheiro. 

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Até agora não falei da bolsa, mas calma que eu vou chegar lá.

Episódio da Vale

Com o sucesso do movimento que Nahas fez no caso da Petrobras, ele resolveu repetir com a Vale.

Comprou opções, suas empresas compravam e vendiam umas para outras com intuito de fazer o preço da ação subir e os papéis da siderúrgica valorizaram 1.600% em 8 meses.

Manipular os preços para lucrar com a subida é ilegal. Além disso, gostaria de lembrar que em 1929 alguns investidores fizeram essa jogada na Bolsa de NY e… bom, a história está para aí para nos dizer algo.

Ao perceber as manipulações, o presidente da Bovespa convenceu os bancos a parar de emprestar dinheiro para o empresário.

Naji Nahas já tinha passado cheques para a compra de ações, mas sem os empréstimos os cheques ficaram sem fundos. As corretoras tiveram que assumir a dívida, o Bovespa confiscou a carteira de ações de US$ 500 milhões de Nahas para compensar os prejuízos e a notícia foi parar no Jornal Nacional.

Viu? E você achando que eu tinha surtado no começo do texto falando sobre o Jornal Nacional.

E a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro?

No dia seguinte da notícia, não teve pregão. O medo era de uma queda massiva. Os investidores começaram a se questionar

O que aquela valorização de 1.600% significava? Quanto realmente tinha valorizado? E os outros papéis? Também tinham subido por influência da jogada da Nahas?

As pessoas identificaram que era uma senhora bolha e que ela iria estourar. E o que acontece quando todo mundo quer vender antes que todo mundo venda? 

Todo mundo tenta vender o mais rápido, pelo preço mais baixo e faz com que as ações despenquem o valor.

Nesse caso, as ações perderam 1/3 do valor.

Assim, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro começou a ficar esvaziada, perdeu credibilidade e não conseguiu mais se recuperar nos anos seguintes. 

Em 28 de Abril de 2000, a BVRJ fez seu último pregão do mercado de ações no Rio e passou a negociar apenas títulos públicos. Em 2002, foi incorporada pela  Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros – BM&FBOVESPA S.A. 

Naji Nahas foi preso e ficou em reclusão domiciliar por um ano. Em 2007, foi inocentado do caso.

Você já conhecia esse caso? Deixa aqui sua opinião sobre esse episódio. 

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