Há duas semanas eu fiz uns stories no instagram do Real Valor respondendo uma pergunta que chega com alguma frequência para mim: “Por que o gráfico do Real Valor tem degraus?”

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Voltando ao assunto do texto… Quando você olha para um gráfico no Real Valor, ele registra degraus positivos quando há compras e degraus negativos quando há venda.

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Imagem ilustrativa, não estamos indicando nenhum investimento aqui, ok?

Isso é porque a gente mostra o gráfico de evolução patrimonial.

Algumas outras ferramentas de acompanhamento de investimento preferem mostrar os gráficos de outra maneira, mostrando o gráfico de performance da carteira.

Isso foi tema de muitos debates meus com o Gabriel sobre qual era a melhor forma de mostrar para o usuário. Cada uma tem as suas vantagens e hoje eu vou destrinchar as 2 formas de olhar para a sua carteira.

Avaliando performance

Você com certeza já viu gráficos de fundos de investimento. Eles não costumam ter degraus, mesmo quando muitas pessoas colocam ou retiram dinheiro dos fundos.

Abaixo, uma imagem do mesmo fundo retratado anteriormente, na forma de performance da carteira.

Fundo de investimento

Isso acontece porque para o fundo, isso não importa (na verdade até importa, mas esse é assunto para outro texto).

O fundo está preocupado se a escolha de ativos está sendo bem feita ou não, ou seja, se o fundo está dando dinheiro ou não.

Por isso, para o fundo é melhor olhar sempre para o gráfico de performance da carteira.

Lá, você consegue ver a rentabilidade global da carteira e consegue enxergar melhor a volatilidade dela.

Essa visão funciona muito bem para fundos. Não tão bem para a sua carteira pessoal. Sabe por quê?

Porque essa visão traz algumas armadilhas. Vou te dar dois exemplos.

Exemplo 1: Fundo que parece bom mais não é

Vamos supor um fundo de investimentos muito bom. Ele faz 50% de rentabilidade no primeiro ano. Mas ele era bem pequeno. Com um patrimônio líquido de R$1.000.000.

Com esse sucesso, novos cotistas começam a entrar e o patrimônio líquido cresce para R$500.000.000. No segundo ano, já com um fundo bem maior, o gestor não consegue repetir a mesma rentabilidade. Ao invés de 50%, ele faz -1%.

Você olha para o gráfico consolidado por performance e chega a conclusão de que o fundo é muito bom. Ele tem 49% acumulado em 24 meses.

Mas e se olharmos sob um outro prisma?

Quando o fundo tinha 1 milhão de Patrimônio Líquido, ele fez 50% de ganho, ou seja, ele rendeu R$ 500.000 aos seus cotistas. No segundo ano, ele começa com R$500.000.000 e perde 1%. Isso equivale a R$5.000.000.

O fundo ganhou quinhentos mil reais para os cotistas no primeiro ano e perdeu 5 milhões no segundo.

Apesar do gráfico de performance indicar que isso é um bom fundo, a verdade é que quase nenhum cotista de fato fez dinheiro com ele. Por isso que os aportes importam para a carteira do cliente.

Achou que é um exemplo muito fantasioso? Olha o exemplo desse fundo real

Performance do fundo

Desde 2006, ele rende quase 1.900%, mas o grande salto aconteceu no começo.

De 2008 a 2020, a rentabilidade pouco mudou. Ela “lateralizou”, como chamamos no mercado financeiro.

Inclusive, esse foi o momento em que o valor aplicado no fundo também deu um salto, consegue perceber no gráfico? De lá para cá, o fundo vem lateralizando.

Patrimônio líquido do fundo

O que que isso signfica? Que esse fundo teve altas rentabilidades quando era pequeno e quando cresceu, teve rentabilidades muito menores, fazendo com que ele na verdade não gere tanto dinheiro quanto parece pelo gráfico.

Exemplo 2: O investidor que escolhe bons ativos mas perde dinheiro

Acho que já deu para entender os perigos de olhar a performance da carteira no exemplo anterior, mas vou citar mais um para frisar bem.

Vou exagerar nos números a seguir para ficar mais claro a ideia.

Imagine que você começa a investir em ações da Petrobras aplicando R$10.000 e suponhamos que o papel nesse momento valia R$10,00.

(De novo, isto é um exemplo, não estamos indicando nenhum investimento neste texto. Se você quiser saber mais sobre ações, dá uma olhada nesse post aqui)

Rapidamente esse montante vira R$20.000 porque a ação da Petrobras dobrou, valendo agora R$20,00.

Digamos que você, coincidentemente, ganhou uma herança. Você está animado com os investimentos e então decide colocar mais R$1.000.000 em Petrobras.

So que agora, ao invés de ela continuar subindo, ela caiu. A ação que valia R$20,00 volta a valer R$10,00. Então o R$ 1.000.000,00 que você investiu, agora vale na verdade R$ 500.000,00.

Não sei se você já percebeu, mas nesse caso, você perdeu R$500.000 e a performance de PETR4 é 0%, visto que começou em R$10 e está em R$10 de novo. Isso não parece muito intuitivo né? Vamos continuar o exemplo.

Agora você está com medo de continuar perdendo dinheiro, tira quase tudo que investiu, deixando só os R$10.000 iniciais. Mas o mercado é volátil e agora a ação da Petrobras sobe para R$20,00 de novo.

Se você olhar o gráfico da ação da Petrobras, verá uma rentabilidade de 100%. Esse gráfico está mostrando a volatilidade do papel.

A ação de Petrobras cresceu 100%

Mas, ao olhar o seu patrimônio, percebemos que você perdeu dinheiro. Por quê?

Mas o investidor perdeu dinheiro

Primeiro você colocou R$ 10.000 e teve rentabilidade de 100%. Seu patrimônio acumulado foi para R$ 20.000,00.

Animado com a herança você colocou R$ 1.000.000,00 + R$ 20.000,00. Totalizou R$1.020.000,00

Quando a ação caiu pela metade e seu patrimônio virou R$ 510.000,00 (50% de R$ 1.020.000), mas você resolveu tirar R$ 500.000,00 deixando apenas os R$10.000,00 iniciais. Seu patrimônio líquido é então de R$ 510.000,00

Mas, a ação valorizou 100% novamente e os 10.000,00 viraram R$ 20.000,00.

No final seu patrimônio líquido é de R$ 20.000,00 + R$ 500.000,00 (valor que você retirou ). Caso você não tivesse feito a retirada, você teria o valor de R$ 1.020.000,00 e não teria perdido dinheiro.

Mas esse é justamente o problema. O timing de aportar e resgatar tem influência grande na evolução do patrimônio.

Consegue perceber que se olhar só a rentabilidade de 100% da carteira, seria um grande negócio?

Pode parecer um exemplo exagerado, mas esse é o comportamento clássico da média dos investidores: comprar no otimismo e vender no pessimismo.

Isso geralmente gera resultados ruins. E se o investidor só está olhando para gráficos de performance da carteira, ele pode deixar passar casos como esse.

Vamos olhar uma tabela que mostra esses aportes e quanto de dinheiro o investidor tem no final.

AnoValor PETR4Aportes/ResgatesAportes acumuladosAportes com rentabilidadeTotal Patrimônio
110 10.000 10.000 10.000 10.000
220 1.000.000 1.010.000 1.020.000 1.020.000
310-500.000 510.000 10.000 520.000
420 510.000 20.000 530.000

Mas então qual é o jeito certo de ver o resultado?

A verdade é que o padrão do mercado é justamente essa visão de performance de carteira, mas a gente, aqui no Real Valor acredita que essa não é a melhor visão para o investidor pessoa física.

Então como o Real Valor faz?

A gente leva em consideração os aportes e os resgates. Inclusive, contamos eles na rentabilidade.

Como funciona isso? A cada aporte ou resgate, a gente contabiliza o montante de dinheiro que já foi investido naquele ativo e o quanto ele vale hoje.

A conta é simples.

$$\frac{Valor hoje}{Valor aportado} = Rentabilidade$$

Isso é replicado desde a visão por produto, até categorias e a carteira global.

Essa visão também tem alguns problemas. Quando os aportes/resgates são grandes, fica difícil de ver a volatilidade do gráfico.

Além disso, os aportes acabam sempre dando uma diluída na rentabilidade.

Há quem diga que é o jeito errado de calcular a rentabilidade e que na verdade ela deveria ser calculada olhando a performance da carteira.

Outras pessoas acabam achando estranho que elas tenham investimentos que estão rendendo 500% do CDI, mas a carteira geral tá bem abaixo disso.

Isso acontece porque a verdade é que os aportes que aconteceram no meio do caminho diluíram na rentabilidade.

Por ego, seria mais legal ver 500% na carteira, mas a gente no Real Valor acredita que o que é melhor para o investidor pessoa física é justamente ver os ganhos ponderados pelos aportes/resgates.

E você? Concorda que olhar só a performance pode ser perigoso?